EXPEDIÇÃO EM VELHAS TRILHAS DE GARIMPEIROS – ANDARAÍ – CHAPADA DIAMANTINA

Publicado: 15/01/2015 em Expedições

Antes de falar sobre esta expedição, é bom trazer uma preocupação para reflexão, principalmente aos moradores da Chapada Diamantina: os moradores da região parecem estar diminuindo sua presença nas serras, rios, vales e cachoeiras da região em seus momentos de lazer. Há poucos anos atrás, em uma geração anterior com dificuldade de acesso à internet e nenhum acesso aos meios de comunicação onde os bate-papos virtuais se tornaram o lazer, os encontros pessoais eram mais valorizados, onde os grupos de moradores, em sua grande parte formados por estudantes, guias e brigadistas de incêndios florestais, faziam trilhas e acampamentos pela região. Os valores humanos contemporâneos parecem ter envolvido a Chapada Diamantina em sua anestesia, onde o calor humano é substituído pelo das máquinas. Não que eu seja contra a tecnologia. Mas não estamos sabendo usá-la. Alguns sabem usá-la, e não é raro descobrir, ao pesquisar a internet, grupos de excursionistas e de expedicionários espalhados pelo Brasil, principalmente em áreas com forte apelo ao ecoturismo e ao turismo de natureza.

Ao convidar amigos da região para fazer trilhas e conhecer mais a Chapada Diamantina, é difícil encontrar parceiros, a não ser que os mesmos vejam oportunidades financeiras. Não é cabível em minha mente morar neste exuberante e único lugar no mundo com suas características próprias e não conhecê-la o quanto for possível, por prazer, por amá-la.

Por que não formar um Grupo Expedicionário na região, constituído por moradores com interesse em comum: conhecer a Chapada Diamantina? Não existe um único ser, seja guia, brigadista, garimpeiro, mochileiro, que conheça toda a Chapada Diamantina. É impossível em uma só vida, mesmo que se dedicasse exclusivamente a isso. Então, vamos conhecer nossa casa: a Chapada Diamantina, o quanto pudermos, dentro de nossas possibilidades. Assim, está em formação o Grupo Expedicionário Chapada Diamantina, informal, mas com responsabilidade e organização.

 

No dia 10 de janeiro de 2015 houve a primeira expedição, no município de Andaraí. A intenção era conhecer a Cachoeira do Ramalho por cima, já que a trilha por baixo é bem conhecida e é um dos principais cartões postais de Andaraí e da Chapada Diamantina, situada dentro do Parque Nacional. Nenhum dos integrantes do grupo conhecia esta trilha, mas conheciam as redondezas. E assim fomos: eu, Homero, Tarcísio e Valter, os 3 últimos moradores de Andaraí.

Andaraí é conhecida por ser uma cidade quente. Cercada por rochas e em local baixo (400m de altitude), encanta por seu povo acolhedor, apesar do sofrimento histórico que este povo passou. E é de sua sede municipal que iniciamos a caminhada.

A trilha começa na mesma que dá acesso à Cachoeira do Ramalho por cima, mas logo à frente saímos e seguimos por uma trilha antiga de garimpeiros. Desde o início da trilha até chegarmos nos quilômetros finais, em área de solo arenoso, argiloso e de Mata Atlântica, a vista era de rocha remexida por todo o percurso. Segundo nosso amigo Homero, conhecido como Velho Urso, eram mais de 25.000 garimpeiros naquela serra.

Atravessamos o rio Baiano, afluente do Paraguaçu, que estava neste dia com bastante água, e começamos a subir a serra, até alcançarmos a vista da Cachoeira do Ramalho, um largo véu branco a embelezar as paredes da serra. No céu, uma águia-chilena estava sendo expulsa por um pequeno pássaro, provavelmente por seu ninho estar sendo ameaçado pela ave.

Mais à frente, avistamos a cidade de Andaraí e o rio Baiano do alto, e então percebemos que estávamos entrando no Parque Nacional, não por qualquer placa, mas pelo GPS. Nesta região não há nenhum indicativo, nem cerca, que indique o início da Unidade de Conservação. Este fato é evidenciado pelas inúmeras entradas que tem o Parque, e este relato serve como mais um documento que alerta para esta necessidade, apesar dos esforços da administração local da Unidade.

Não achamos a trilha que dava acesso à Cachoeira do Ramalho por cima, e preferimos não forçar a barra abrindo picadas, trilhas, etc, até mesmo porque a área está na Zona Primitiva do Parque, que não permite abertura de picadas e novas trilhas. Seguimos por trilha antiga de garimpeiros até esta se fechar, e retornamos e continuamos a seguir a trilha aberta. Esta começou a se afastar da Cachoeira do Ramalho, e foi quando tivemos que decidir em continuar procurando por ela ou seguir em frente, para ver onde esta trilha iria sair. E decidimos pela última opção, considerando também o horário do sol.

À medida que fomos caminhando, observamos a monotonia do ambiente, com pouca diversidade de espécies da flora e nenhuma fauna, salvo as aves que às vezes transmitiam seu canto. O que pudemos perceber, já que era berrante, era todo o percurso totalmente revirado pelo garimpo. Cascalho solto, terra revirada em barranco, pontes artesanais, tocas, e outras amostras históricas de um antigo garimpo. Nos questionamos porque aquela área foi inserida no Parque Nacional, e se foi inserida talvez seria para ser um museu do garimpo ou algum elemento histórico-cultural. Mas fato é que andamos mais de 12km em destroços do garimpo.

Finalmente, a trilha acabou em um barranco de garimpo. E agora? Retornamos, enquanto observamos o vale do rio Garapa, de domínio territorial de Tarcísio, uns 2km abaixo? Não. Seguimos por velhas trilhas, desviando, pulando fendas, escorregando nos cascalhos, pulando rochas, passando por pilhas de pedras agrupadas. Imaginei toda aquela serra com milhares de garimpeiros em cima dela. E hoje: só resquícios de uma “indústria” garimpeira que elevou as cidades do circuito do diamante (Mucugê, Andaraí, Lençóis e Palmeiras) e batizou a região de Chapada Diamantina nas águas do Paraguaçu.

Após este trecho cansativo, chegamos na casa de Miguel, na região do Brigadeiro – Garapa, não mais utilizada por ele. Tomamos um cafezinho que carregamos na mochila e seguimos por trilha, agora bem aberta, até passarmos já à noite pela Mata Atlântica de Andaraí até sairmos do Parque Nacional, retornando para a cidade de Andaraí.

Esta trilha não é indicada para turismo, e nem o Plano de Manejo do Parque direciona para isso. Ela deve der feita somente para necessidades de emergência, a exemplo de combates a incêndios florestais. Apesar de eu sempre citar que cada passo na Chapada é um atrativo, não há diversidade de ambiente neste percurso, estando a vegetação ainda degradada, em área rochosa totalmente revirada pelo garimpo. Para o turismo, existem outras opções mais diversificadas em trechos mais curtos. Foram 18km de trilha em 12 horas, sem muito descanso.

Pretendemos fazer a próxima expedição na Serra do Orobó, no município de Ruy Barbosa, fora do eixo explorado pelo setor turístico na Chapada Diamantina. Esta serra é conhecida pela sua exuberante Mata Atlântica em transição para a região de Caatinga (Mata Seca).

Rogério Mucugê Miranda, em 15/01/2015

Mapa com legenda

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s