Hoje fui fazer um passeio rotineiro sozinho. Desta vez, pensei que iria fazer uma trilha sem muitas novidades até o Poço Redondo, um dos atrativos turísticos de Mucugê mais visitado por moradores locais. Porém, surpresas apareceram no caminho.

Já comecei a trilha tarde (11h da manhã) para quem gosta de começar cedo. Mas o dia nublado ajudou. De início, comecei a trilha dentro da Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN Adilia Paraguassú (com “ss” mesmo). Paraguassú é uma família tradicional de Mucugê (quem nunca ouviu falar da índia Catarina Paraguassú?). Estava quase tudo florido nos arbustos e gramíneas da RPPN. E as abelhas estavam trabalhando, principalmente polinizando as Calliandras vermelhas.

Calliandra sendo polinizada por uma abelha africana.

Calliandra sendo polinizada por uma abelha africana.

Parei em um córrego que estava com bom volume de água graças à chuva que caiu recentemente, tirei o tênis, e resolvi colocar somente a palma das mãos na água. De início, a senti geladinha. Mas logo as palmas das mãos e a água pareciam ser uma coisa só. Então enfiei as mãos na água e a água e o corpo pareciam ser um, em sintonia. Fato curioso é que aproximadamente 70% de nosso corpo é constituído de água, segundo estudiosos. Se é assim, estava firmado o contato entre as águas. Somente água fluindo: no meu corpo e nos rios da Chapada Diamantina, fluindo e pulsando. Um só sangue. Sugiro que os guias façam esta experiência com os visitantes. Boa oportunidade para uma reflexão sobre a importância da água em nossas vidas.

Água é vida

Água é vida

Como o dia estava nublado, muitas aves estavam cantando e era fácil avistá-las. Percebi que a RPPN, de fácil acesso, inclusive para a turma da melhor idade, é um ótimo lugar para se fazer observação de aves: cedo ou em dia nublado. Uma rocha ao alto, se for aberta uma trilha até lá, servirá também para observar a RPPN do alto e o vale do Rio Preto com as serras que o contorna. Excelente vista! Os urubus estavam em bando por lá aproveitando o visual.

Beija-flor

Continuando a trilha, passei por um pasto abandonado, e um enxame de gafanhoto pulava para todo o lado. Eles tinham um brilho diferente que me deixou curioso. Eram lindos! Vocês já ouviram o termo “nuvem de gafanhotos”? Eu estava andando sobre as nuvens.

Gafanhoto

Após ter passado pelos campos da RPPN e pelo pasto abandonado, comecei a caminhar entre árvores. Se o dia estivesse com céu azul, com certeza eu sentiria muito calor até este ambiente. Ilha de Mata Atlântica em estágio inicial de recuperação, só tive amplidão de visão ao chegar no rio Paraguaçu – Parque Nacional da Chapada Diamantina, exatamente no Poço Redondo.

O Poço Redondo já foi trabalhado por garimpo de diamantes. Hoje não há exploração de minério nele. Há um local de acampamento que parece ser bastante utilizado. Não é uma vista cênica como a ponte do Paraguaçu em Andaraí, mas é um poço também que chama ao banho. E foi o que eu fiz.

Poço Redondo - Rio Paraguaçu

Poço Redondo – Rio Paraguaçu

Ao retornar no final do dia, bem devagar, a passos lentos pela Mata Atlântica, observei vários pássaros que vivem em ambiente de floresta. Muitos visitantes reclamam por não avistarem aves e bichos na Chapada. Eles estão na região. Porém há técnicas para isso, a exemplo da roupa (tem que ser tipo “camuflada”), sem perfumes, passos lentos, silêncio total, grupos pequenos, e muita paciência. Nós não vemos os bichos. Mas com certeza eles estão nos vendo.

Beija-flor-marrom (Colibri delphinae). Raro, encontrado somente em Roraima e na Chapada Diamantina.

Beija-flor-marrom (Colibri delphinae). Raro, encontrado somente em Roraima e na Chapada Diamantina.

Apesar de não ser divulgada pelo trade turístico de Mucugê, aconselho a trilha para observadores de aves. De outra forma, um bom guia intérprete (falo de guia que interpreta a trilha, e não a língua) pode enriquecer o passeio. Ainda mais se ele motivar a ciência e a vivência no ambiente natural através de técnicas que estimulam a percepção do visitante.

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Quem optar passar uns dias em Mucugê e quiser observar aves, vale a pena investir um dia de passeio saindo 5 horas da manhã para a RPPN até finalizar com um banho no Poço Redondo. Vários ambientes significam diferentes habitats de bichos e aves que vivem naquele ou neste ambiente.


Mapa imagem satélite

Rogério Mucugê

Antes de falar sobre esta expedição, é bom trazer uma preocupação para reflexão, principalmente aos moradores da Chapada Diamantina: os moradores da região parecem estar diminuindo sua presença nas serras, rios, vales e cachoeiras da região em seus momentos de lazer. Há poucos anos atrás, em uma geração anterior com dificuldade de acesso à internet e nenhum acesso aos meios de comunicação onde os bate-papos virtuais se tornaram o lazer, os encontros pessoais eram mais valorizados, onde os grupos de moradores, em sua grande parte formados por estudantes, guias e brigadistas de incêndios florestais, faziam trilhas e acampamentos pela região. Os valores humanos contemporâneos parecem ter envolvido a Chapada Diamantina em sua anestesia, onde o calor humano é substituído pelo das máquinas. Não que eu seja contra a tecnologia. Mas não estamos sabendo usá-la. Alguns sabem usá-la, e não é raro descobrir, ao pesquisar a internet, grupos de excursionistas e de expedicionários espalhados pelo Brasil, principalmente em áreas com forte apelo ao ecoturismo e ao turismo de natureza.

Ao convidar amigos da região para fazer trilhas e conhecer mais a Chapada Diamantina, é difícil encontrar parceiros, a não ser que os mesmos vejam oportunidades financeiras. Não é cabível em minha mente morar neste exuberante e único lugar no mundo com suas características próprias e não conhecê-la o quanto for possível, por prazer, por amá-la.

Por que não formar um Grupo Expedicionário na região, constituído por moradores com interesse em comum: conhecer a Chapada Diamantina? Não existe um único ser, seja guia, brigadista, garimpeiro, mochileiro, que conheça toda a Chapada Diamantina. É impossível em uma só vida, mesmo que se dedicasse exclusivamente a isso. Então, vamos conhecer nossa casa: a Chapada Diamantina, o quanto pudermos, dentro de nossas possibilidades. Assim, está em formação o Grupo Expedicionário Chapada Diamantina, informal, mas com responsabilidade e organização.

 

No dia 10 de janeiro de 2015 houve a primeira expedição, no município de Andaraí. A intenção era conhecer a Cachoeira do Ramalho por cima, já que a trilha por baixo é bem conhecida e é um dos principais cartões postais de Andaraí e da Chapada Diamantina, situada dentro do Parque Nacional. Nenhum dos integrantes do grupo conhecia esta trilha, mas conheciam as redondezas. E assim fomos: eu, Homero, Tarcísio e Valter, os 3 últimos moradores de Andaraí.

Andaraí é conhecida por ser uma cidade quente. Cercada por rochas e em local baixo (400m de altitude), encanta por seu povo acolhedor, apesar do sofrimento histórico que este povo passou. E é de sua sede municipal que iniciamos a caminhada.

A trilha começa na mesma que dá acesso à Cachoeira do Ramalho por cima, mas logo à frente saímos e seguimos por uma trilha antiga de garimpeiros. Desde o início da trilha até chegarmos nos quilômetros finais, em área de solo arenoso, argiloso e de Mata Atlântica, a vista era de rocha remexida por todo o percurso. Segundo nosso amigo Homero, conhecido como Velho Urso, eram mais de 25.000 garimpeiros naquela serra.

Atravessamos o rio Baiano, afluente do Paraguaçu, que estava neste dia com bastante água, e começamos a subir a serra, até alcançarmos a vista da Cachoeira do Ramalho, um largo véu branco a embelezar as paredes da serra. No céu, uma águia-chilena estava sendo expulsa por um pequeno pássaro, provavelmente por seu ninho estar sendo ameaçado pela ave.

Mais à frente, avistamos a cidade de Andaraí e o rio Baiano do alto, e então percebemos que estávamos entrando no Parque Nacional, não por qualquer placa, mas pelo GPS. Nesta região não há nenhum indicativo, nem cerca, que indique o início da Unidade de Conservação. Este fato é evidenciado pelas inúmeras entradas que tem o Parque, e este relato serve como mais um documento que alerta para esta necessidade, apesar dos esforços da administração local da Unidade.

Não achamos a trilha que dava acesso à Cachoeira do Ramalho por cima, e preferimos não forçar a barra abrindo picadas, trilhas, etc, até mesmo porque a área está na Zona Primitiva do Parque, que não permite abertura de picadas e novas trilhas. Seguimos por trilha antiga de garimpeiros até esta se fechar, e retornamos e continuamos a seguir a trilha aberta. Esta começou a se afastar da Cachoeira do Ramalho, e foi quando tivemos que decidir em continuar procurando por ela ou seguir em frente, para ver onde esta trilha iria sair. E decidimos pela última opção, considerando também o horário do sol.

À medida que fomos caminhando, observamos a monotonia do ambiente, com pouca diversidade de espécies da flora e nenhuma fauna, salvo as aves que às vezes transmitiam seu canto. O que pudemos perceber, já que era berrante, era todo o percurso totalmente revirado pelo garimpo. Cascalho solto, terra revirada em barranco, pontes artesanais, tocas, e outras amostras históricas de um antigo garimpo. Nos questionamos porque aquela área foi inserida no Parque Nacional, e se foi inserida talvez seria para ser um museu do garimpo ou algum elemento histórico-cultural. Mas fato é que andamos mais de 12km em destroços do garimpo.

Finalmente, a trilha acabou em um barranco de garimpo. E agora? Retornamos, enquanto observamos o vale do rio Garapa, de domínio territorial de Tarcísio, uns 2km abaixo? Não. Seguimos por velhas trilhas, desviando, pulando fendas, escorregando nos cascalhos, pulando rochas, passando por pilhas de pedras agrupadas. Imaginei toda aquela serra com milhares de garimpeiros em cima dela. E hoje: só resquícios de uma “indústria” garimpeira que elevou as cidades do circuito do diamante (Mucugê, Andaraí, Lençóis e Palmeiras) e batizou a região de Chapada Diamantina nas águas do Paraguaçu.

Após este trecho cansativo, chegamos na casa de Miguel, na região do Brigadeiro – Garapa, não mais utilizada por ele. Tomamos um cafezinho que carregamos na mochila e seguimos por trilha, agora bem aberta, até passarmos já à noite pela Mata Atlântica de Andaraí até sairmos do Parque Nacional, retornando para a cidade de Andaraí.

Esta trilha não é indicada para turismo, e nem o Plano de Manejo do Parque direciona para isso. Ela deve der feita somente para necessidades de emergência, a exemplo de combates a incêndios florestais. Apesar de eu sempre citar que cada passo na Chapada é um atrativo, não há diversidade de ambiente neste percurso, estando a vegetação ainda degradada, em área rochosa totalmente revirada pelo garimpo. Para o turismo, existem outras opções mais diversificadas em trechos mais curtos. Foram 18km de trilha em 12 horas, sem muito descanso.

Pretendemos fazer a próxima expedição na Serra do Orobó, no município de Ruy Barbosa, fora do eixo explorado pelo setor turístico na Chapada Diamantina. Esta serra é conhecida pela sua exuberante Mata Atlântica em transição para a região de Caatinga (Mata Seca).

Rogério Mucugê Miranda, em 15/01/2015

Mapa com legenda

Turismo de Base Comunitária (TBC) é a atividade desenvolvida pela comunidade local, onde a mesma tem autonomia sobre os recursos locais e empreendimentos por meio de participação coletiva. Nesta atividade, segundo o Projeto Bagagem, a comunidade é proprietária das ações e gestões turísticas locais, ela é a principal beneficiada, seus modos de vida são respeitados, há intercâmbio cultural e aprendizado mútuo através da troca de experiências, conservação ambiental, transparência no uso dos recursos e parceria social (Fonte: Estudos Integrados de Turismo de Base Comunitária – INCRA / FUNDESF).

No meio rural da Chapada Diamantina, o INCRA e a FUNDESF, através do Programa Terra Sol, juntamente com assentados de reforma agrária da região, associam a prática do TBC com o Turismo Rural na Agricultura Familiar (TRAF). Em Lençóis, já ocorrem outras iniciativas em andamento, a exemplo da visita à Comunidade Quilombola do Remanso.

Abaixo, vejam um vídeo de roteiros de TBC / TRAF nos assentamentos de reforma agrária da Chapada Diamantina, nos municípios de Itaetê, Iramaia, Nova Redenção e Andaraí.

Conviva com os assentamentos da Chapada Diamantina: vida comunitária, agricultura familiar, artesanato, culinária, hospedagem, guias locais, cultura, trilhas, povo, tudo em uma relação de troca. Junte-se à isso, você, e tenha uma experiência única.

Artigo feito com autoria do turismólogo e geógrafo Alberto Viana de Campos Filho e co-autoria de Rogério Mucugê Miranda.

Clique abaixo para download do artigo:

Artigo – O turismo do campo na educação do campo

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Artigo – Territorialidades do turismo comunitário e solidário

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ARTIGO – PARA ONDE VAI A MICROBACIA DO RIO CAPÃOZINHO

Quem já ouviu falar do “diamante carbonado” ou “diamante negro”? Na metade do Século XIX, nem os garimpeiros da Chapada Diamantina sabiam que este produto teria tanta importância em sua comercialização. Foi nesta parte do território baiano a sua primeira descoberta, na década de 1840, quando foi diagnosticada também como diamante. De cor preta, poroso, de formas irregulares e mais duro que o próprio diamante monocristalino, tem esse nome devido ao carbono encontrado nele. No auge da exploração diamantífera na região, o carbonado não tinha valor, e os garimpeiros o jogavam foram. Com a decadência das lavras diamantinas em 1871, devido à grande produção qualitativa do diamante monocristalino na África, e a descoberta do carbonado como sendo produto de alto valor comercial para a indústria, houve uma imensa procura por este produto antes descartado, representando até 70% de toda a produção brasileira de diamantes. A Chapada Diamantina era a maior produtora de diamante carbonado do mundo.  O maior exemplar foi encontrado no município de Lençóis, sendo conhecido como “Carbonado do Sérgio”, pesando 3.167 ct (mais de 3 quilates).

Carbonado - o Diamante Negro

Carbonado – o Diamante Negro

 

Geologicamente, o carbonado possui zircão, um dos minerais mais antigos do mundo, com aproximadamente 4 bilhões de anos, que resistiu ao intemperismo e à erosão. Talvez isto explique a dureza do carbonado que lhe deu valor na fabricação de brocas de perfuratrizes de rochas, para perfurações em várias partes do mundo, inclusive do Canal de Panamá, em 1880, com a utilização dos carbonados da Chapada Diamantina. Com a fabricação de carbonados sintéticos pela indústria no início do Século XX, o carbonado chapadense perde valor comercial, e o êxodo alcança fortemente a região.

Canal do Panamá, de 81km, ligando os Oceanos Pacífico e Atlântico, na América Central, perfurado com auxílio do carbonado da Chapada Diamantina

Canal do Panamá, de 81km, ligando os Oceanos Pacífico e Atlântico, na América Central, perfurado com auxílio do carbonado da Chapada Diamantina